{"id":13349,"date":"2019-08-21T10:07:50","date_gmt":"2019-08-21T13:07:50","guid":{"rendered":"http:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/?p=13349"},"modified":"2019-08-21T14:59:08","modified_gmt":"2019-08-21T17:59:08","slug":"o-que-um-juiz-aprende-ao-trabalhar-como-faxineiro-por-um-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/o-que-um-juiz-aprende-ao-trabalhar-como-faxineiro-por-um-dia\/","title":{"rendered":"O que um juiz aprende ao trabalhar como faxineiro por um dia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13350\" src=\"http:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_1.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_1.jpg 700w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_1-300x171.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Em alguns dos processos que chegam ao Tribunal do Trabalho do Rio do Janeiro, h\u00e1 <em>&#8220;situa\u00e7\u00f5es relatadas pelos trabalhadores que a gente fica na d\u00favida se s\u00e3o verdade ou n\u00e3o&#8221;<\/em>, diz a ju\u00edza do trabalho Adriana Leandro, de 50 anos. Na primeira sexta-feira de agosto, a ju\u00edza p\u00f4de ver por conta pr\u00f3pria que algumas delas s\u00e3o mesmo reais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ela foi telefonista de uma ag\u00eancia banc\u00e1ria por um dia, sem que colegas e superiores diretos soubessem de sua verdadeira profiss\u00e3o. E viu uma colega passar as 6 horas de expediente sem tomar um gole d&#8217;\u00e1gua. <em>&#8220;N\u00e3o porque houvesse algu\u00e9m impedindo, mas porque ela tinha tanto medo de perder o emprego, e se se levantasse n\u00e3o haveria ningu\u00e9m pra fazer o atendimento, que ela simplesmente n\u00e3o tinha coragem de ir beber \u00e1gua&#8221;<\/em>, conta Adriana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A magistrada foi uma das 23 participantes deste ano de um projeto da Escola Judicial do TRT-RJ que visa a melhorar a empatia dos ju\u00edzes e desembargadores. Para isso, eles passam um dia na pele de outros trabalhadores. Os magistrados fazem aulas te\u00f3ricas, um dia de treinamento e depois trabalham por um dia como faxineiros, garis, telefonistas, cobradores, ajudantes gerais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;A empatia \u00e9 essencial para todos, mas para n\u00f3s especialmente, diariamente, a gente tem que se colocar no lugar do outro, se colocar na pele tanto do trabalhador, quando do empregador, para entender as dificuldades que eles enfrentam&#8221;<\/em>, diz o juiz Thiago Mafra da Silva, tamb\u00e9m do TRT do Rio de Janeiro, que trabalhou um dia como gari para a Comlurb, a empresa de limpeza da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;O juiz que perdeu a capacidade de olhar com empatia para o outro, perdeu a capacidade de ser juiz&#8221;<\/em>, diz Marcelo Augusto Souto de Oliveira, diretor da Escola Judicial e um dos respons\u00e1veis pela implementa\u00e7\u00e3o da ideia.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_13352\" aria-describedby=\"caption-attachment-13352\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13352\" src=\"http:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_2-1.jpg 970w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_2-1-300x171.jpg 300w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_2-1-768x439.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13352\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt;\">O juiz aposentado Jorge Pinto Lopes trabalhou como ajudante de servi\u00e7os gerais durante um dia<br \/>Foto: Let\u00edcia Mori\/BBC<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Na \u00faltima sexta-feira de julho, Thiago estava entre a meia d\u00fazia de trabalhadores que faziam a limpeza da praia do Leme. Morador do Botafogo, ele n\u00e3o teve a experi\u00eancia de acordar todos os dias \u00e0s 4h20 da manh\u00e3 para ir ao trabalho, como seu colega naquele dia Alexander Santos Pereira, de 44 anos, gari h\u00e1 dez anos. Tamb\u00e9m nunca soube o que \u00e9 viver com o sal\u00e1rio de R$ 1,5 mil que Alexander recebe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas sentiu por um dia como \u00e9 passar cinco horas trabalhando sob o sol quente retirando da areia copos pl\u00e1sticos, restos de comida e bitucas de cigarro. Sem o chap\u00e9u e sem protetor solar, Thiago sofreu insola\u00e7\u00e3o. <em>&#8220;Foi bem pesado, cheguei a vomitar por causa da insola\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mesmo assim, Thiago achou a experi\u00eancia importante e positiva. <em>&#8220;\u00c9 um exerc\u00edcio importante, porque a nossa carga de processos \u00e9 muito grande. Se n\u00e3o tomarmos cuidado, corre o risco de virar autom\u00e1tico, de virar s\u00f3 mais um processo. Sendo que para as partes n\u00e3o \u00e9 isso, \u00e0s vezes \u00e9 uma das coisas mais importantes da vida delas&#8221;<\/em>, diz.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 18pt;\">Resist\u00eancia<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Implantado pela Escola Judicial em 2017, o projeto quase acabou pouco depois de come\u00e7ar. Muitos ju\u00edzes e desembargadores n\u00e3o reagiram bem \u00e0 ideia de passar um dia em trabalhos com menor remunera\u00e7\u00e3o e, na vis\u00e3o deles, de menor prest\u00edgio, conta o diretor da Escola Judicial Marcelo Augusto.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8220;Teve magistrado dizendo: &#8216;mas eu fiz concurso p\u00fablico para isso?'&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Marcelo Augusto j\u00e1 apresentou o projeto para 24 diretores de escolas e foi muito questionado: <em>&#8220;E o que o juiz ganha com isso?&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Eu n\u00e3o garanto que o juiz vai produzir estat\u00edsticas melhores. N\u00e3o d\u00e1 grife, aderir ao projeto. N\u00e3o \u00e9 um bom cap\u00edtulo do meu curr\u00edculo. Mas eu garanto que ele ser\u00e1 uma pessoa melhor. E, como acredito que pessoas melhores s\u00e3o ju\u00edzes melhores, acho que o projeto \u00e9 essencial&#8221;<\/em>, defende ele que, al\u00e9m de implementar o projeto, tamb\u00e9m participou nas tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Logo no in\u00edcio, um colunista conhecido no Rio de Janeiro deu uma nota sobre a iniciativa com o t\u00edtulo jocoso <em>&#8220;sand\u00e1lias da humildade&#8221;<\/em>, o que gerou mais repercuss\u00e3o negativa por parte dos magistrados. Al\u00e9m disso, o nome oficial, <em>&#8220;Vivendo o Trabalho Subalterno&#8221;<\/em>, tamb\u00e9m n\u00e3o foi bem recebido na imprensa. <em>&#8220;Ficaram dizendo: &#8216;que nome horr\u00edvel, que humilhante, n\u00e3o \u00e9 subalterno'&#8221;<\/em>, diz Marcelo.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_13353\" aria-describedby=\"caption-attachment-13353\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13353\" src=\"http:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_3.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_3.jpg 970w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_3-300x171.jpg 300w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_3-768x439.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13353\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Os garis Alexander Santos Pereira e S\u00e9rgio Jesus Teixeira s\u00e3o parte da equipe que faz a limpeza do Leme, no Rio<br \/>Foto: Let\u00edcia Mori\/BBC<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas ele defende a escolha.<em>&#8220;Poder\u00edamos chamar de trabalho subordinado, mas, em termos legais, toda pessoa contratada por\u00a0<a class=\"cite\" title=\"DECRETO-LEI N.\u00ba 5.452, DE 1\u00ba DE MAIO DE 1943\" href=\"https:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/111983249\/consolida\u00e7\u00e3o-das-leis-do-trabalho-decreto-lei-5452-43\" rel=\"10766433\">CLT<\/a>\u00a0\u00e9 subordinada. Mas nem toda profiss\u00e3o passa pelo processo de invisibilidade social, onde o outro \u00e9 tratado sem respeito e, muitas vezes, simplesmente n\u00e3o \u00e9 visto&#8221;<\/em>, diz.<em>&#8220;Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 trabalho manual, temos ju\u00edzes trabalhando como telefonistas e cobradores de \u00f4nibus, cargos que tamb\u00e9m muitas vezes passam por esse processo&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Apesar da resist\u00eancia de muitos ju\u00edzes, o projeto foi implementado, j\u00e1 que a escola tem autonomia. No primeiro ano, de 20 vagas dispon\u00edveis, s\u00f3 12 foram preenchidas. Em 2019 foram 24 participantes, alguns at\u00e9 de outros Estados. Do projeto, resultaram um livro e um document\u00e1rio \u2013 e hoje uma experi\u00eancia parecida est\u00e1 sendo feita no TRT-4.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 18pt;\">Invisibilidade<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">O tema da invisibilidade p\u00fablica j\u00e1 vinha sendo tratado na Escola Judicial h\u00e1 tempos, desde que foi introduzido pelo juiz auxiliar da escola e professor de direito Roberto Fragale Filho. A ideia veio de um livro do soci\u00f3logo da USP Fernando Braga, que trabalhou como gari na USP durante cinco anos e escreveu sobre a enorme dist\u00e2ncia que \u00e9 criada pelas diferen\u00e7as entre as classes sociais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Em seu trabalho, Braga explica como o n\u00e3o enxergar o outro como uma pessoa por causa do uniforme \u00e9 um processo que pode ser em parte inconsciente, e relata sua pr\u00f3pria experi\u00eancia como gari. Uniformizado, frequentemente n\u00e3o era reconhecido pelos colegas da USP com quem convivia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Fragale convidou Braga para participar da forma\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzes no tribunal, mas a Escola considerou que as falas sozinhas n\u00e3o estavam surtindo o efeito necess\u00e1rio \u2013 e decidiu aprofundar a experi\u00eancia, levando os ju\u00edzes para mais perto da realidade que quem trabalha em cargos com menor remunera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A principal preocupa\u00e7\u00e3o, diz Marcelo Augusto, diretor da Escola, era respeitar as pessoas que fazem os trabalhos de verdade e evitar que o projeto n\u00e3o se tornasse um &#8220;espet\u00e1culo&#8221;, uma representa\u00e7\u00e3o superficial de uma categoria profissional, uma esp\u00e9cie de &#8220;turismo &#8220;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Para isso, diz ele, os ju\u00edzes t\u00eam aulas te\u00f3ricas, passam por um treinamento junto com todos os outros trabalhadores e, no fim do dia, podem revelar que est\u00e3o ali para experimentar a realidade do trabalhador. Depois disso, passam mas dois dias relatando e discutindo a experi\u00eancia. No total, s\u00e3o 50 horas de curso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Quem adere ao projeto j\u00e1 est\u00e1 em um processo pr\u00e9vio de questionamento&#8221;<\/em>, diz Marcelo.<em>&#8220;Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma Disneyl\u00e2ndia, porque o projeto n\u00e3o goza dos maiores elogios entre a magistratura. Acho at\u00e9 que \u00e9 um projeto que n\u00e3o \u00e9 para todos os ju\u00edzes. Porque n\u00e3o \u00e9 a maioria que quer trabalhar a empatia&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Esse \u00e9 um problema de quem tem poder. Quem tem poder raramente est\u00e1 pronto e aberto para ser questionado. Para ser chamado a abrir m\u00e3o de parcela desse poder, ou de exerc\u00ea-lo como se ele n\u00e3o tivesse o poder&#8221;<\/em>, diz Marcelo. <em>&#8220;Abrir m\u00e3o de poder, mesmo por um dia, \u00e9 uma dificuldade humana. Porque o poder \u00e9 inebriante&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">No in\u00edcio, em 2017, diversas emissoras e programas de TV queriam acompanhar com c\u00e2meras e microfones escondidos, mas a Escola n\u00e3o autorizou.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_13354\" aria-describedby=\"caption-attachment-13354\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13354\" src=\"http:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_4.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_4.jpg 970w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_4-300x171.jpg 300w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_4-768x439.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13354\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt;\">A juiza Adriana Leandro trabalhou como telefonista por um dia<br \/>Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Se eu quero trabalhar empatia com meus ju\u00edzes, o colocar-se no lugar do outro, essa coisa de perceber-se um privilegiado, eu n\u00e3o posso oferecer para ele um pr\u00eamio como resultado da ades\u00e3o. Uma divulga\u00e7\u00e3o, uma capa de revista, um nome na imprensa. A\u00ed, eu perdi o projeto&#8221;<\/em>, diz Marcelo Augusto.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8220;Eu quero trabalhar o contr\u00e1rio, eu quero que ele perca o seu lugar confort\u00e1vel. Se eu filmo o cara com um microfone escondido, uma c\u00e2mara escondida, a\u00ed vai fazer fila aqui na porta de juiz querendo aparecer no pr\u00f3ximo Fant\u00e1stico.&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A BBC News Brasil teve permiss\u00e3o para acompanhar parte do dia a campo dos ju\u00edzes, mas de longe e sem interferir no trabalho \u2013 que os ju\u00edzes depois relataram em detalhes.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 18pt;\">Ju\u00edza na faxina<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Para alguns dos ju\u00edzes, a experi\u00eancia \u00e9 nova muito antes de chegar \u00e0 parte do trabalho em si. Para a ju\u00edza ga\u00facha Patr\u00edcia Lampert, foi a primeira vez que ela andou de trem no Rio de Janeiro. Ela foi para a Fiocruz trabalhar como faxineira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Em poucos minutos, j\u00e1 estava fazendo tudo errado. Eu fazia muita for\u00e7a, fazia muito esfor\u00e7o, abaixava errado. Muito desajeitada&#8221; <\/em>conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas as colegas ensinaram tudo: como usar a enceradeira, qual sapato evitar para fazer a lava\u00e7\u00e3o, a maneira correta de fazer a limpeza para n\u00e3o ficar com dor. <em>&#8220;\u00c9 um desemprego muito grande, e mesmo assim me explicaram, senti uma solidariedade muito grande, n\u00e3o uma competi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">As colegas comentaram muito que os funcion\u00e1rios deveriam aproveitar o \u00faltimo dia de aula antes da volta dos alunos, quando os banheiros que estavam sendo limpos ainda estavam em boas condi\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Porque as pessoas n\u00e3o respeitam, eles chegam a jogar coco nas paredes. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de total desconsidera\u00e7\u00e3o com o outro. E os faxineiros, ao mesmo que ficam indignados, dizem &#8216;\u00e9 assim mesmo'&#8221;<\/em>, conta.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8220;Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma desvaloriza\u00e7\u00e3o s\u00f3 pelo valor do sal\u00e1rio, \u00e9 essa sensa\u00e7\u00e3o do trabalho ser invis\u00edvel, de parecer que o banheiro se limpa sozinho. Ele dizem, &#8216;a gente bota placa, bota o carrinho, e eles pisam assim mesmo'&#8221;.<\/span><\/em><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 18pt;\">&#8216;Miopia social&#8217;<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Patr\u00edcia trabalhou em companhia com outra ju\u00edza na Fiocruz \u2013 ambas brancas, de mesmo tom de pele e cabelo preto. <em>&#8220;N\u00e3o somos parecidas, mas l\u00e1 n\u00f3s \u00e9ramos. Nos perguntaram se \u00e9ramos irm\u00e3s&#8221;<\/em>, conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Negros t\u00eam cargos de rendimento mais baixo do que brancos no Brasil \u2013 ganham R$ 1,2 mil a menos na m\u00e9dia, segundo dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8220;A gente sabe que existe desigualdade, mas quando a gente v\u00ea assim&#8230; Eu ainda n\u00e3o absorvi a experi\u00eancia toda. \u00c9 como se [no dia a dia] voc\u00ea andasse um pouco com miopia&#8221;.<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Marcelo Augusto reconhece que apenas um dia de trabalho \u00e9 uma viv\u00eancia bastante limitada. Depois disso, os ju\u00edzes v\u00e3o voltar para seus apartamentos na Zona Sul, seus bons sal\u00e1rios, sua seguran\u00e7a no emprego, seus privil\u00e9gios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Um juiz que passa um dia limpando a praia nunca ser\u00e1 um gari de praia. O projeto n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de transformar a vida inteira da pessoa por um dia. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 submeter uma experi\u00eancia que eu chamaria at\u00e9 de rala, mas que \u00e9 capaz de afet\u00e1-lo&#8221;<\/em>, diz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ele diz que n\u00e3o \u00e9 <em>&#8220;um guru de auto-ajuda&#8221;<\/em> que promete transformar a vida as pessoas.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8220;Estou entregando uma ferramenta, que pode afet\u00e1-la. N\u00e3o \u00e9 uma convers\u00e3o religiosa, \u00e9 uma experi\u00eancia pedag\u00f3gica, que serve para fora do Judici\u00e1rio, \u00e9 uma ferramenta de gest\u00e3o de pessoas muito \u00fatil para cargos de poder e autoridade. Tudo vai depender do que for feito depois com ela&#8221;.<\/span><\/em><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 18pt;\">Sob o Sol<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Thiago trabalhou na Comlurb \u2013 um dia limpando a praia e outro no administrativo. Assim como os outros ju\u00edzes que participaram do projeto, ele conta que uma parte muito interessante da experi\u00eancia foi ouvir as hist\u00f3rias e situa\u00e7\u00f5es de outros trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Thiago saiu j\u00e1 uniformizado do seu pr\u00e9dio no Botafogo, bairro da classe m\u00e9dia na Zona Sul do Rio de Janeiro. O porteiro, ao perguntar sobre o uniforme e ouvir sobre o projeto, come\u00e7ou a contar a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Ele tem o segundo grau completo, mas ficou desempregado e foi ser auxiliar de servi\u00e7os gerais na Outback. Diz que, pela qualifica\u00e7\u00e3o que tinha, se sentia meio constrangido na profiss\u00e3o e quase entrou em depress\u00e3o, porque a forma de tratamento das pessoas com ele era muito rude. Ele disse, por exemplo, que os gar\u00e7ons se sentiam superiores e tratavam mal os auxiliares&#8221;<\/em>, conta Thiago.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ele pr\u00f3prio n\u00e3o teve outras experi\u00eancias do tipo. <em>&#8220;Claro que \u00e9 um trabalho desgastante, sob o sol, dif\u00edcil. Mas por ser concursado, as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o at\u00e9 melhores do que em outros lugares. E os colegas demonstravam muito orgulho do trabalho e a consci\u00eancia da import\u00e2ncia que esse trabalho tem&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Na praia, sob o sol alto, uma senhora disse: <\/span><em><span style=\"font-size: 14pt;\">&#8220;Nossa, mas voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o branquinho para ficar no sol, n\u00e3o te deram o <\/span><span style=\"font-size: 18.6667px;\">chap\u00e9u<\/span><span style=\"font-size: 14pt;\">\u00a0de prote\u00e7\u00e3o? Eles t\u00eam que te dar!&#8221;.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;No in\u00edcio, achei gentil a preocupa\u00e7\u00e3o dela, mas depois fiquei pensando: ser\u00e1 que ele se preocuparia se eu n\u00e3o fosse branco? Ser\u00e1 que ela acha que existe um perfil para fazer esse tipo de trabalho?&#8221;,<\/em> questiona Thiago.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_13355\" aria-describedby=\"caption-attachment-13355\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13355\" src=\"http:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_5.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_5.jpg 970w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_5-300x171.jpg 300w, https:\/\/sindesvdf.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Juizes_5-768x439.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13355\" class=\"wp-caption-text\">Os juizes Thiago Mafra e M\u00f4nica Cardoso trabalharam de garis para a Comlurb, empresa que faz a limpeza do RJ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">S\u00e9rgio Jesus Teixeira, que \u00e9 gari de verdade h\u00e1 nove anos e tamb\u00e9m trabalha no Leme, diz que em geral as pessoas tratam bem, mas alguns epis\u00f3dios incomodam. <em>&#8220;Ver a falta de consci\u00eancia das pessoas jogando lixo na rua, praia&#8230; D\u00e1 uma tristeza&#8221;, <\/em>diz S\u00e9rgio.<em> &#8220;E quando, na praia, as pessoas falam com tom mal educado e dando ordens do que e de como ele deve recolher&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es corriqueiras na vida do trabalhador, mas que muitas vezes os ju\u00edzes \u2013 que tomam decis\u00f5es que os afetam diretamente \u2013 s\u00f3 veem de longe em audi\u00eancias. <em>&#8220;\u00c9 uma realidade muito distante para quem passa o dia no tribunal&#8221;<\/em>, afirma a ju\u00edza Adriana Leandro, que trabalhou como telefonista.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 18pt;\">Medo de perder o emprego<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;\u00c0s vezes a gente est\u00e1 t\u00e3o endurecido, por mais que lide todo dia com muitos processos, sentir um pouquinho do que a empresa do que o empregado sente, \u00e9 importante para sensibilizar &#8220;<\/em>, diz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ela conta que a marcou muito o pavor que as colegas telefonistas \u2013 uma em especial \u2013 tinham de perder o emprego.<em> &#8220;Ela tem outro emprego, mas o marido est\u00e1 desempregado, ent\u00e3o ela ficava na ang\u00fastia, um desespero fora do comum&#8221;.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><em>&#8220;Ela ficou doente e n\u00e3o vai ao m\u00e9dico, porque se ele disser que ela tem que operar, como vai fazer?&#8221;<\/em>, diz ela, ressaltando que a colega parecia ser uma \u00f3tima profissional, muito dedicada.<em> &#8220;Mas \u00e9 uma inseguran\u00e7a de que isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para tranquiliz\u00e1-la&#8221;.\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(Fonte: G1 \/ BBC)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"wpf_wrapper\"><a class=\"print_link\" href=\"\" target=\"_blank\">Preparar para impress\u00e3o<\/a><\/p><!-- .wpf_wrapper -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em alguns dos processos que chegam ao Tribunal do Trabalho do Rio do Janeiro, h\u00e1 &#8220;situa\u00e7\u00f5es relatadas pelos trabalhadores que&hellip; 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